Lucia Costa destaca legado de Rosa Kliass para a arquitetura paisagística brasileira

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o IAB RJ inicia uma série de entrevistas com arquitetas e urbanistas que se destacam no cenário fluminense em áreas como projeto, ensino e pesquisa, política, interiores, militância institucional e cultura, entre outras.

A arquiteta paisagista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lucia Costa, abre a série. Com atuação profissional que vai além da prática projetual, Lucia teve papel importante na consolidação do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourb) da UFRJ, especialmente na criação e coordenação do Mestrado Profissional em Arquitetura Paisagística.  Coautora, com Maria Cecília Gorski, do livro “O Livro da Rosa: vivências e paisagens”, que recebeu o Prêmio Cultura Arquitetônica 2019 do IAB-SP, Lucia lidera pesquisas sobre estratégias para ampliação e manutenção da biodiversidade urbana a partir do projeto da paisagem.

Na entrevista a seguir, Lucia comenta a trajetória e a contribuição da arquiteta paisagista Rosa Kliass, cujo trabalho e pioneirismo seguem inspirando profissionais que buscam protagonismo nos campos da arquitetura, do urbanismo e da arquitetura paisagística.

IAB RJ: Qual é a principal contribuição de Rosa Kliass para a arquitetura paisagística no Brasil?

Lucia Costa: Rosa Kliass traz uma contribuição extraordinária para a consolidação do campo profissional da arquitetura paisagística no Brasil. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo nos anos 1950, desde o início voltou sua carreira para essa área, abrindo novos caminhos e marcando uma atuação fértil em um campo predominantemente masculino. Rosa foi a primeira arquiteta paisagista no Brasil a ter seu próprio escritório, criado em 1970 — um pioneirismo que sempre pautou seu trabalho.

IAB RJ: De que forma seus projetos ajudaram a transformar as cidades brasileiras?

LC: Sua atuação profissional se destaca, principalmente, pelos projetos de espaços abertos em diferentes escalas em muitas cidades brasileiras. Rosa criou paisagens públicas com grande importância cultural, ambiental e social em cidades como São Paulo, Salvador, Belém do Pará e Macapá, entre tantas outras. São projetos que demonstram como a arquitetura paisagística pode qualificar o espaço urbano e ampliar a relação das pessoas com a cidade.

IAB RJ: Além dos projetos, que outras contribuições Rosa Kliass trouxe para o campo profissional?

LC: Rosa teve também um papel muito importante na estruturação institucional da área. Liderou a criação da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas; assumiu cargos públicos na prefeitura de São Paulo; assessorou governadores e prefeitos em políticas públicas ligadas ao planejamento e ao projeto paisagístico; representou o Brasil em associações profissionais no exterior; organizou congressos e cursos; publicou livros e realizou palestras em universidades e entidades profissionais no Brasil e fora do país. Seus trabalhos também foram amplamente publicados em livros e revistas internacionais.

IAB RJ: O reconhecimento de sua trajetória também é bastante significativo, não?

LC: Sim. Entre os muitos prêmios e homenagens que recebeu, Rosa teve uma Sala Especial na 6ª Bienal de São Paulo, foi reconhecida pela Harvard University como uma das três mais importantes arquitetas paisagistas das Américas e foi a primeira arquiteta a receber o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil. Na cerimônia, ela destacou um ponto importante ao afirmar: “Depois de mais de cinquenta anos, apenas em 2019 uma mulher recebeu o Colar de Ouro. Tenho certeza de que isso não deriva da ausência de profissionais mulheres com qualidade para receber o prêmio antes de mim”.

IAB RJ: Que reflexões o legado de Rosa Kliass traz para as novas gerações de arquitetas?

LC: As condições de trabalho e o papel das mulheres na arquitetura vêm sendo discutidos há vários anos. Como ressalta Rosa, o reconhecimento público do valor e da importância do trabalho feminino na arquitetura, no urbanismo e na arquitetura paisagística é um passo fundamental para a valorização da profissão. Conhecer a complexidade de seu trabalho e as estratégias que ela desenvolveu para enfrentar desafios e conciliar vida profissional e pessoal certamente inspira muitas arquitetas brasileiras. Mais importante ainda é que esse debate sobre condições de trabalho e igualdade de gênero não fique restrito ao mês de março, mas seja permanente ao longo do ano.

Legenda da imagem: Ilustração de Rosa Kliass.

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