O presidente do Instituto Aritana e cacique da Aldeia Yawalapiti, situada na Terra Indígena do Xingu, Tapi Yawalapiti, esteve na COP30 para captar parceiros e investidores para construção da sede do instituto que leva o nome de seu pai, grande liderança do Xingu que faleceu de Covid-19 durante a pandemia.
O terreno destinado à construção está em fase avançada de doação pelo Governo do Distrito Federal, intermediado pela FUNAI, em iniciativa coordenada pelo conselheiro do IAB Renato Sanchez. Foi ele, amigo de longa data do cacique Aritana, quem manteve intenso diálogo com os seus parentes e membros da aldeia para determinar o programa e o esboço inicial do edifício-sede. Ele explica a concepção:
“Inspirado em um projeto anterior para uma escola indígena, o formato faz referência a um cocar Yawalapiti, seu objeto mais sagrado. Como resultado, o edifício acaba abraçando uma praça central que, a exemplo das aldeias Yawalapiti, é o espaço mais importante do complexo. Lugar do coletivo, onde acontecem os encontros, as reuniões, apresentações e rituais. O programa inclui ainda um museu, loja de artesanato, administração, espaços de reunião abertos e fechados, cozinha, refeitório e salão cultural, sala de leitura, informática, sala multiuso e uma sala para a associação das mulheres do Xingu.”
Para desenvolver o projeto a tempo de o cacique poder levar para a COP, Sanchez convidou outro conselheiro do IAB, o ex-presidente do IAB RJ, Igor de Vetyemy, que é representante do Brasil na Comissão de Povos Indígenas da União Internacional de Arquitetos (UIA). Com seus parceiros da Carioca Arquitetos, Adriele Machado e Juan Molina, a equipe do professor de Vetyemy transformou o esboço inicial em um complexo cheio de referências às culturas ameríndias e, em especial, à arquitetura e à organização territorial Yawalapiti.
“Com a forma semicircular, expondo a maior fachada às orientações que recebem mais carga solar (Leste, Norte e Oeste), o edifício principal ganhou um elemento sombreador a partir de componentes típicos das casas xinguanas, em suas proporções originais e com uma estrutura fiel à Tapü Yawalapiti”, explica Igor de Vetyemy sobre o complexo.
Um dos dispositivos bioclimáticos mais identificáveis na arquitetura tradicional desse povo é a chaminé de vento, que escoa o ar quente por uma diferença de altura entre as cumeeiras das águas de sua grande cobertura, criando uma zona de baixa pressão interna que atrai para dentro do edifício o ar frio mais próximo do solo. O mesmo dispositivo é usado neste projeto para a sede do Instituto, com um desencontro de cumeeiras que cria esse efeito chaminé, produzindo uma eficiente renovação do ar e reduzindo a temperatura do edifício.
“No topo, essa ‘meia-tapü Yawalapiti’ funciona como uma sobrecobertura acima do teto que permite a climatização das salas solicitada pelos indígenas, aumentando a eficiência energética com o sombreamento da superfície superior. Atrás, ela se torna uma segunda pele que circunda todo o corpo do edifício ao longo da fachada mais extensa, ajudando a refrescar o interior e criando áreas de descanso abertas e cobertas, como um grande avarandado”, esclarece de Vetyemy.
Para evitar a fragilidade da suscetibilidade da palha ao fogo, o material tradicional foi substituído por cavaco de madeira em cima e barro nas laterais, com a variação de módulos abertos e fechados criando um desenho que remete aos grafismos Yawalapiti.
No encontro entre as alas Leste e Oeste, um bloco central abriga o acesso principal, o refeitório e salão cultural, o complexo da cozinha e, ao redor dele, a rampa que leva à torre da caixa d’água. Com toda a sede seguindo as normas de acessibilidade NBR 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), o acesso ao ponto mais alto da torre se torna um passeio ritualístico que circunda o bloco central levando a um mirante, que acaba se impondo como programa adicional dessa torre central. Dela se observa o complexo, que estará envolto em natureza depois do completo reflorestamento da área, por sobre a copa das árvores.
Em meio à massa verde, duas edificações tradicionais Yawalapiti abrigarão o auditório e a hospedagem para indígenas de todo lugar que estiverem de passagem por Brasília. Anualmente acontece um evento em Brasília chamado Acampamento Terra Livre, em abril, quando invariavelmente faltam espaços apropriados para receber os parentes do país inteiro. Para apoiar momentos como esse, além da edificação tradicional, o espaço aberto e coberto por trás e por cima do edifício principal também se converte em uma grande hospedagem naturalmente ventilada, com espaço para 60 redes protegidas do sol e da chuva.
As áreas reflorestadas do terreno também podem servir de hospedagem, com a construção temporária de acampamentos de caça tradicionais (que apenas cobrem uma pequena área em meio à floresta para proteger da chuva e se elevam com redes para isolar do solo).
O planejamento geral do complexo segue a organização territorial circular típica da maioria dos povos ameríndios, em especial os xinguanos, com uma distribuição não hierárquica, tendo a praça central como espaço principal, destinado às atividades coletivas. Para reforçar essa centralidade, os dois edifícios tradicionais Yawalapiti completam a esfera sugerida pela curvatura do edifício principal.
Atrás delas, o elemento água, tão central na vida dos povos indígenas, se faz presente em um grande lago, que ajuda a regular a umidade relativa do ar na sede situada em uma cidade mais seca do que o contexto onde vivem os Yawalapiti, no Alto Xingu.
Com inspiração nas palavras do Presidente do Instituto, cacique Tapi Yawalapiti, buscou-se o máximo de autonomia energética e de captação de água da chuva possível, como sugerem suas palavras, ao explicar a cultura de seu povo:
Neste sentido, o projeto objetiva promover e abrigar a maior biodiversidade possível considerando a escala do complexo, com um reflorestamento composto por espécies endógenas do Planalto Central, focado especialmente em espécies presentes também na região do Xingu, que fica numa zona de transição entre o bioma do Cerrado e a Floresta Amazônica.
Ainda sobre a capacidade de fazer uso sustentável dos recursos existentes, sucessivas camadas semicirculares de painéis solares envolvem a rampa da torre central, oferecendo autonomia ao edifício e produzindo no próprio terreno a energia que consome, com a possibilidade de expandir com novas camadas externas em caso de aumento de demanda.
Essa organização é mais uma analogia a uma tecnologia socioambiental indígena, onde plantações em um sistema similar ao que chamamos de agrofloresta se distribuem ao redor de aldeias como as xinguanas. Elas formam anéis concêntricos ao redor das casas para suprir a comunidade com alimento, que não deixa de ser sua forma de energia, para o trabalho de todo dia. Na sede, a energia elétrica, essencial em um edifício como esse nesse contexto, também é produzida (captada e convertida) em anéis concêntricos ao redor do núcleo central.
Por fim, a navegação pelo espaço externo se dá através de grafismos Yawalapiti impressos nos caminhos que conectam todos os elementos do complexo. E todos os caminhos levam à praça central, local do coletivo, como analogia principal de uma cultura que abriga herança riquíssima de uma cosmovisão à qual todos deveríamos dar mais valor e conhecer melhor.”






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