Dora Alcântara: uma vida dedicada ao patrimônio brasileiro

Iniciadas no 8 de março de 2026, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB RJ) dá continuidade a série de depoimentos e entrevistas com arquitetas urbanistas de destaque em áreas relativas ao projeto, ao ensino e pesquisa, à política e cultura e à militância institucional sobre o protagonismo feminino, ao longo dos 105 anos do IAB.

A arquiteta urbanista e professora Vera França e Leite, cuja atuação profissional se estendeu para além da prática do projeto físico-espacial, filiou-se ao IAB em 1966, em seu primeiro ano como estudante de arquitetura na FAU/UFRJ. Desde então, milita no Instituto, integrando diferentes e sucessivas gestões, tanto no Departamento do Rio de Janeiro quanto no do Distrito Federal, período em que fixou residência em Brasília. Nessa mesma ocasião, exerceu papel relevante na construção e consolidação do Capítulo da Política Urbana, durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988), sempre orientada pelo ideário e pela independência política e crítica, mas propositiva do IAB.

Em suas atividades docentes, iniciadas a convite da professora Dora Alcântara, ministrou aulas na Faculdade de Arquitetura de Barra do Piraí, experiência essa que conduziu à posterior convocação irrecusável do professor Edgar Graeff para integrar sua equipe no recém-nascido Curso de Artes e Arquitetura da Universidade Católica de Goiás, e a levou a dar aulas também na FAU/UnB. É autora de diversos artigos, resenhas e livros em literatura especializada, dentre eles se sobressai, o mais recentemente, Caminhos que Levam à Cidade, obtendo o primeiro lugar na Premiação Anual do IAB-RJ 2021 e na Premiação Anual Nacional do IAB, em 2022, além de participar da equipe de organização do livro comemorativo do centenário da entidade, intitulado Instituto de Arquitetos do Brasil 1921-2021 – um século de arquitetura e urbanismo em defesa da democracia, da cultura e do direito à cidade.

Em seu depoimento, Vera França e Leite faz um breve relato do papel desempenhado e sobre a contribuição da arquiteta e professora Dora Alcântara, cujo trabalho enriquecedor abriu caminhos e segue orientando a prática profissional de todos aqueles que buscam aprofundar conhecimentos na História da Arquitetura e do Urbanismo e se empenhar na Preservação e Conservação do Patrimônio Cultural brasileiro.


Mais que uma entrevista formal comemorativa do 8 de Março – Dia Internacional da Mulher, o Departamento do Rio de Janeiro do IAB vem a público compartilhar com seus associados, por meu intermédio, um resumido depoimento sobre os caminhos percorridos pela arquiteta carioca Dora Monteiro de Silva Alcântara, em sua persistente trajetória de vida, onde a generosidade é marca indelével.

Formada na antiga Escola Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil em 1957, atual FAU/UFRJ, ainda jovem estudante, Dora Alcântara integrou o Bureau de Arquitetura e Urbanismo (BNEAU))[1], colegiado que congregava representantes dos diretórios acadêmicos das então sete faculdades de arquitetura existentes no país – Rio Grande do Sul, São Paulo (USP e Mackensie), Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, entorno de temas referentes ao estudo da Arquitetura brasileira e ao aprimoramento qualidade do seu ensino-aprendizado. Assim, Dora ingressava no movimento estudantil, participava da criação do Diretório Acadêmico Atilo Correia Lima (DAACL) da Escola Nacional de Arquitetura, e em 1954, após o 4º Congresso Brasileiro de Arquitetos, promovido pelo IAB e realizado em São Paulo, recebia sua carteira de sócia-aspirante do IAB/GB[2]

Paralelamente, destacando-se, durante a sua formação profissional, como estudiosa e aluna dedicada à disciplina de História da Arquitetura no Brasil, ministrada pelo professor Paulo Ferreira Santos, passou a auxiliá-lo de perto, como assistente, na organização dos respectivos conteúdos e na preparação das aulas. 

Esses primeiros passos rumo à profissão, ela mesma assegura, foram decisivos nas escolhas de vida subsequentes.

A pesquisa acadêmica e a atividade docente, lado a lado ao ingresso no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a convite do Dr. Rodrigo Mello Franco de Andrade, a levou ao Maranhão para realizar levantamento sobre as condições do conjunto arquitetônico da cidade de São Luís e as peculiaridades e influências da arquitetura tradicional brasileira. Fruto dessa intensa experiência, o trabalho parceiro com o arquiteto Antônio Pedro Alcântara, seu marido, propiciou a ambos o primeiro lugar na 8ª Premiação Anual do IAB, em 1970, com dois trabalhos: Plano de recuperação física e valorização cultural da cidade de Alcântara, e osegundo, Roteiro de exposição e pesquisa bibliográfica sobre Alcântara. Ainda na capital maranhense, Dora se empenhou no estudo da azulejaria de fachada, pródiga em exemplos no centro histórico da cidade, o que possibilitou a conquista de bolsa de estudos na Fundação Gulbenkian, para estagiar com Santos Simões[3], em Lisboa. Como resultante dessa oportunidade, nova Premiação Anual do IAB, na sua edição de 1971, voltava a contemplar Dora Alcântara, dessa vez com trabalho solo, intitulado Maranhão – revestimento cerâmico na arquitetura brasileira, em especial na cidade de São Luís.   

De volta ao Rio de janeiro, reassume o magistério e leciona a disciplina de História da Arte na Escola de Belas Artes, onde permanece até 1973, quando retorna à Faculdade de Arquitetura da UFRJ e à cadeira de História da Arquitetura no Brasil. Nesse mesmo período, passa também a dar aulas na Faculdade Santa Úrsula e coordena o curso de Teoria e História de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura de Barra do Piraí. Esse conjunto experiências adquiridas, somadas às atividades no IPHAN, inicialmente junto a Diretoria de Tombamento e, mais tarde como Coordenadora Geral de Bens Culturais e Naturais, no IPHAN/Pró-Memória, conduzem-na, por inequívoca competência, a coordenar duas Comissões Permanentes do IAB/RJ – a Comissão de Ensino e a de Patrimônio.

A especial ênfase dedicada ao período que corresponde aos seus primeiros dez anos de carreira, talvez o menos divulgado na trajetória investigativa de Dora Alcântara, onde os projetos realizados com Pedro Alcântara aliavam conhecimento técnico, propósitos comuns e virtudes individuais, traduzem um caminhar paralelo, mas, ao mesmo tempo convergente em seus propósitos. Porém, em momento algum as eventuais parcerias empanaram o seu brilho, o seu jeito determinado e autêntico de proceder. Dora, sem quaisquer estrelismos, sempre teve luz própria!

Em tempos brasileiros, onde as questões feministas e a igualdade de gênero ainda não empolgavam os debates na sociedade, nem no IAB, a presença Dora Alcântara, em um campo profissional majoritariamente masculino, imprimiu um percurso singular, onde o rigor de abordagem se desenvolve em um compasso harmônico com o desejo genuíno de transmitir.

Desnecessário dizer que, em decorrência da comprovada dedicação e empenho, Dora angariou respeito e admiração, quer do contingente de seus ex-alunos quer de seus colegas de profissão e de saber correlato, não só no Brasil, mas, também, no exterior. Referência comprovada e reconhecida no estudo dos azulejos de origem portuguesa, Dora tem lugar garantido de fala no campo teórico sobre o tema.

Inúmeros foram os prêmios obtidos e homenagens recebidas ao longo dos seus quase 70 anos de atuação profissional, durante os quais, costuma afirmar: minha vida ficou tão ligada ao IPHAN e ao IAB que fica, às vezes, um pouco difícil separar uma coisa da outra.    

Passados quase cem anos da fundação do Instituto, o seu Conselho Superior, convocado em 2019, durante a gestão de Nivaldo de Andrade na presidência da Diretoria Nacional, decide-se por preencher uma evidente e injustificada lacuna. Em duas reuniões sucessivas, no mesmo ano, concede às arquitetas mulheres – Rosa Kliass e Dora Alcântara o Colar de Ouro -, reconhecimento máximo outorgado pelo IAB pelo conjunto da obra e destacada participação na consolidação e engrandecimento da Arquitetura Brasileira. Esse tributo, embora tardio, além de reafirmar o seu significado simbólico, trouxe consigo um viés prático – consolidou espaço para a eleição e posse, em 2020, da primeira mulher Presidente do IAB – a arquiteta urbanista Maria Elisa Baptista.

Confesso não se tratar de tarefa fácil sintetizar em poucas palavras o quanto Dora proporcionou a arquitetas e arquitetos, muitos de nós seus alunos e alunas, Brasil afora! Fato é que, ao longo de sua trajetória incansável, a Pequena Notável, como costumo a ela me referir afetuosamente, proporcionou conhecimentos e reflexões críticas, estreitou laços afetivos e profissionais, estimulou iniciativas, sempre norteada por oferecer e compartilhar o seu melhor.

Vera França e Leite
Membro Titular do Conselho Superior do IAB/RJ
Rio de Janeiro, 08 de março de 2026.

Dora Alcântara recebendo Colar de Ouro do arquiteto e urbanista e então presidente do IAB RJ, Igor de Vetyemy. Ao fundo, a arquiteta e urbanista Maria Elisa Baptista, primeira mulher a presidir a Direção Nacional do IAB


[1] Convém aqui esclarecer, que Bureau de Arquitetura dos anos 1950 pode ser visto como um antecedente histórico da criação da Executiva Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo (ENEAU) dos anos 1960, vinculada a UNE, e da atual Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo (FeNEA). N.A.

[2] O Estado do Rio de Janeiro passou a se denominar Estado da Guanabara, em 1960, quando da mudança da capital federal para Brasília. Em 1975, durante o governo ditatorial-militar de Ernesto Geisel, houve a fusão do Estado da Guanabara com o do Rio de Janeiro, formando o atual Estado do Rio de Janeiro. N.A.

[3] João Miguel dos Santos Simões foi o primeiro grande especialista nos estudos sobre revestimento de azulejaria portuguesa. N.A.

Ilustração de Dora Alcântara

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