Entre as propostas das 28 equipes inscritas, o trabalho da Carioca se destacou por sua sensibilidade e respeito aos símbolos indígenas. Segundo o júri, a proposta apresenta “um esquema sensível, pois é exitosa na utilização de formas arquetípicas da construção indígena de maneira inteligente e não redutora”. O resultado, ainda segundo os avaliadores, é “fluido, com grande sinergia entre os espaços de uso comum livres e aqueles construídos”.
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Arquiteto titular do escritório, Igor de Vetyemy celebra a oportunidade de ampliar o diálogo com os saberes ancestrais depois do recente projeto para a sede do Instituto Aritana em Brasília: “É mais um passo na nossa busca de levar para a prática profissional o que já vínhamos costurando na Academia: a tradução da nossa rica herança cultural indígena em lições aplicáveis na Arquitetura das nossas cidades atuais. Esse projeto investiga e materializa um diálogo muito rico entre a lógica indígena do encontro, do convívio circular, e a estrutura cartesiana da ‘nossa’ organização urbana contemporânea, colonizada”.

O projeto foi batizado pelas indígenas da equipe de de Kunhãgue Tekoa, “Aldeia das mulheres” em Guarani Mbya. No grupo estão representantes de diversas etnias: Nawã Pataxó, Tereza Arapium, Carol Potiguara e duas arquitetas indígenas, Natasha Guarani e Ana Pankararu, que foi quem formulou a questão fundamental do projeto ao colocar uma inquietação antiga sua: como seria o desenrolar da arquitetura originária dessas terras hoje, caso não tivesse sido atravessada e silenciada pela lógica do colonizador?
A arquiteta Pankararu coloca o processo projetual da equipe como parte dessa investigação: “Este projeto nasce de um imaginário sensível, onde técnica e escuta caminham juntas. Ele não é fruto de uma única autoria, mas da confluência de muitos saberes. Ele se constitui a partir de memórias vividas, sentidas e transmitidas com afeto, que atravessam o corpo e chegam às pranchas técnicas. Há, nesse processo, uma transferência de cuidado e de ancestralidade que orienta cada decisão projetual, eu tenho a honra de ter acompanhado e também de ter contribuído.”




A Arquiteta Adriel Mac, responsável técnica da proposta, explica algumas estratégias desenvolvidas através desse processo de escuta e criação coletiva: “O edifício respeita a lógica das circularidades aldeares e de espaços sagrados de encontro, enquanto se adapta também aos limites cartesianos dos terrenos urbanos. Desse encontro, nasce um edifício-barreira que se comporta como uma Cobra em movimento. A estratégia permite a criação de um espaço interno resguardado, onde se localizam as áreas de convivência, com maior privacidade e segurança. A implantação é flexível, permitindo que os blocos se adaptem a diferentes orientações solares, ventos predominantes e configurações de terreno ao girarem em torno de três centralidades – três terreiros, cujos programas nos levaram a chamar de cabeça, coração e útero.”






A arquiteta Natasha Guarani completa: “Mais do que um gesto formal, esse movimento expressa uma compreensão indígena do espaço como organismo vivo, em que corpo, matéria e território não se dissociam. A arquitetura acompanha o terreno como quem reconhece seus ritmos, evitando impor uma geometria rígida sobre a paisagem e permitindo que o espaço seja construído em diálogo com a natureza.”




Segundo a Arquiteta Paisagista Fernanda Mello, a proposta coloca a paisagem no mesmo patamar que a arquitetura. Ela explica que o paisagismo funciona como “uma extensão viva do acolhimento, capaz de reconectar corpo, território e ancestralidade”.
A solução incorpora espécies emblemáticas da Amazônia e do Cerrado, biomas que o concurso definiu como exemplos de adaptação para os projetos modelo, que serão construídos em diferentes regiões do país. Foi feito um grande levantamento de etnias que vivem nas latitudes fornecidas pelo concurso e cada espécie elencada para essas adaptações foi escolhida pelas suas relações com a Arquitetura, cultura, medicina e culinária local. Todas as espécies foram desenhadas manualmente pela paisagista, com apoio da arquiteta Natasha Guarani.

Esse gesto, segundo a arquiteta Ana Luiza Carvalho, “evidencia como os saberes manuais e artesanais transbordam da relação profunda entre os povos indígenas e a natureza, transformando criação, território e ancestralidade numa prática única”.
O projeto da Carioca Arquitetos Associados tem autoria de Ana Pankararu, Natasha Guarani, Adriel Mac, Fernanda Mello, Ana Luiza Carvalho e Igor de Vetyemy. A equipe incluiu ainda o arquiteto Juan Molina, e o estudante Pedro Henrique de Melo.
Escritório de São Paulo leva prêmio de 1º lugar

A vitória do concurso coube à equipe de São Paulo formada exclusivamente por mulheres, liderada pela arquiteta Fernanda Britto. Sua proposta dialoga com conceitos ancestrais da realidade das mulheres indígenas: o quintal e a roça. O projeto apresenta um desenho arquitetônico que incorpora os saberes ancestrais e as cosmovisões das mulheres indígenas, organiza bem os espaços institucionais e os dedicados à vivência, e prioriza privacidade e segurança. O segundo lugar ficou com a equipe de Marcos Fabricio Beneditti Pereira, de Santa Maria (RS), e o terceiro com a equipe de Cuiabá (MT), liderada pela arquiteta Priscila Waldow.
A equipe vencedora, além do prêmio em dinheiro de R$ 50 mil, assinará contrato com a Finatec para desenvolver os projetos executivo de arquitetura e complementares no valor de R$ 772.869,47. As equipes cujas propostas foram classificadas em segundo e terceiro lugar receberão R$ 30 mil e R$ 15 mil, respectivamente.
Outros três trabalhos foram agraciados com menções honrosas. São eles:
- Proposta 104
Fabiano José Arcadio Sobreira
ATELIÊ COLETIVO DE PROJETOS (Brasília – DF)
- Menção Honrosa — Proposta 107
Paula Renata Gresele
ATRICA ARQUITETURA LTDA (Erechim – RS)
- Menção Honrosa — Proposta 114
Gabriela Fernandes Favero
BLOCO B ARQUITETURA LTDA (Florianópolis – SC)
O concurso, organizado pelo Departamento Distrito Federal do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-DF), em parceria com o Laboratório Mulheres, Arquitetura e Território da Universidade de Brasília (Lab Mulheres/UnB) e o Ministério das Mulheres, nasceu de uma construção coletiva pautada na escuta ativa de mulheres indígenas. A iniciativa responde a uma reivindicação explícita feita durante o Acampamento Terra Livre 2025, quando mais de 5 mil mulheres de mais de 100 povos se reuniram em torno de temas como território, emergência climática, violência de gênero, saúde e saberes ancestrais.
De acordo com o Ministério das Mulheres (MMulheres), serão implantadas seis Casas da Mulher Indígena: uma em cada bioma brasileiro (Caatinga, Pampa, Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica) priorizando os territórios indígenas com maior índice de violência contra mulheres.