A presidente do IAB RJ, Marcela Abla, destacou o caráter coletivo e contínuo da construção do encontro, além da importância de fortalecer redes e ampliar o debate sobre o papel da arquitetura na transformação social. Segundo ela, a iniciativa também busca dar visibilidade a experiências já existentes e estimular a disseminação de boas práticas. “A nossa proposta é realmente criar rede, conectar pessoas e propagar para que a gente possa, cada vez mais, voltar os nossos olhares para as favelas”, afirmou, ao reforçar a responsabilidade histórica do IAB no debate sobre habitação e cidade.

A coordenadora do Programa Cidade Integrada, Ruth Jurberg, apresentou as diretrizes da iniciativa estadual, ressaltando o caráter integrado das ações e o foco na articulação entre políticas urbanas e sociais. O programa, segundo ela, atua em diferentes frentes — como infraestrutura, geração de renda, segurança e habitação — sempre com participação ativa das comunidades. “A ideia principal é que a gente de fato possa integrar a cidade formal à cidade informal”, explicou.
Na abertura, Janice Perlman trouxe uma reflexão sobre décadas de pesquisa em favelas e os desafios persistentes das grandes metrópoles, enfatizando a necessidade de políticas consistentes, baseadas em escuta e continuidade. Ao longo de sua fala, destacou a importância de reconhecer as favelas como parte integrante da cidade e de valorizar o conhecimento produzido nesses territórios, apontando que soluções duradouras passam necessariamente pelo envolvimento direto de seus moradores.
Já o antropólogo Santiago Uribe centrou sua apresentação no papel das pessoas como protagonistas na construção urbana. A partir de experiências em cidades como Medellín, defendeu metodologias baseadas na escuta ativa, na confiança e na construção coletiva de visões de futuro. “Se você não constrói esse vínculo de confiança, a cidade não cria instituições. E, sem instituições, não cria processos”, afirmou, ao destacar que o urbanismo deve ser entendido como um processo social contínuo, capaz de articular diversidade e gerar pertencimento.
O arquiteto, ex-secretário Municipal de Habitação do Rio de Janeiro e ex-presidente do IAB, Sérgio Magalhães, chamou atenção para os desafios estruturais das políticas urbanas no Brasil, especialmente a descontinuidade de programas ao longo das gestões. Para ele, a falta de permanência institucional compromete avanços importantes já conquistados. “Nós temos desafios enormes. E eu reduziria a um termo só: nos falta continuidade”, afirmou. Como contraponto, citou a experiência de Medellín, onde uma empresa pública municipal garante, há décadas, a gestão e a expansão da infraestrutura urbana, assegurando acesso universal a serviços básicos.








No encerramento, a arquiteta e urbanista Tatiana Terry complementou o debate ao propor uma mudança de paradigma na relação entre academia e território, defendendo a construção de soluções “com” os moradores e não apenas “para” eles. Com base em sua experiência de 30 anos em projetos de infraestrutura, Tatiana destacou o potencial dos moradores de comunidades que hoje ocupam as universidades para transformar as políticas de inclusão. Ao provocar Janice Perlman, a arquiteta questionou a lógica histórica de programas habitacionais que priorizam o investimento no local em detrimento do investimento nas pessoas, ressaltando que a verdadeira transformação urbana depende de modelos de governança de baixo para cima.
O encontro seguiu com visitas técnicas às comunidades Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, consolidando o evento como um espaço de troca entre diferentes agentes — do poder público à academia, passando por profissionais e lideranças comunitárias — em torno de um objetivo comum: pensar caminhos possíveis para cidades mais justas, integradas e socialmente comprometidas.

Não há futuro para o Rio de Janeiro sem favela
O segundo dia do Encontro Internacional de Favelas começou com a Oficina do Imaginário, conduzida pelo sociólogo Santiago Uribe. Em seguida, os arquitetos e urbanistas Gerônimo Leitão, Manoel Ribeiro, Sérgio Magalhães e Luiz Carlos Toledo, além do historiador Mario Brum, participaram de mesa-redonda conduzida pelo professor e pesquisador Marcelo Burgos, do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio. Nesta atividade, os participantes foram provocados a responder a pergunta: “como o conhecimento de cada um foi empregado para a prática nas favelas?”

O arquiteto Manoel Ribeiro foi enfático ao dizer que, em seu caso, o processo foi inverso: “A prática das favelas é que me trouxe conhecimento”. Com 35 anos de atuação, Ribeiro destacou a complexidade econômica desses territórios, citando o mercado imobiliário interno de venda e aluguel de lajes como uma forma de acumulação de capital que deve ser encarada com assistência técnica para garantir a segurança das estruturas.

A necessidade de políticas públicas permanentes foi o tom da fala de Gerônimo Leitão. O arquiteto e professor utilizou o espaço para denunciar o que chamou de “abandono de uma política pública de urbanização de favelas pelo município”. Para Leitão, o retrocesso institucional é agravado pela falta de uma resposta contundente dos movimentos sociais organizados. “É fundamental que a urbanização de favelas volte a ser algo relevante, que faça parte da agenda política”, alertou.
Sérgio Magalhães reforçou a tese de que o urbanismo em favelas não pode ser engessado, mas sim um “projeto em permanente elaboração” que responda à vitalidade desses lugares. Ele trouxe como exemplo positivo o plano de Niterói, que pretende urbanizar todas as suas 82 comunidades até 2030, articulando infraestrutura com serviços de saúde, esporte e educação. Exibiu também documento sobre o programa Favela-Bairro.
O historiador Mário Brum apresentou uma perspectiva fundamental ao debate, conectando o urbanismo contemporâneo à história de segregação racial do Rio de Janeiro. Ele destacou que a formação das favelas está profundamente ligada a famílias negras remanescentes da escravidão e de quilombos, e criticou como a construção de estigmas sociais, muitas vezes baseada em boatos e não em dados, foi usada para justificar remoções históricas, como no caso da Cruzada São Sebastião. Brum alertou que essa visão deturpada ainda sustenta a violência atual e a exclusão territorial, enfatizando a necessidade de romper com a “naturalização de que existe espaço da cidade, que existem moradores da cidade que são vidas descartáveis”. Para ele, entender a favela como um produto dessa história é o primeiro passo para qualquer tentativa real de integração urbana.
Com cerca de 30 anos de atuação na Rocinha, Luiz Carlos Toledo relembrou professores e colegas que marcaram sua trajetória. Entre eles, destacou Carlos Nelson Ferreira de Souza, de quem aprendeu a trabalhar com os moradores sem subestimar seus saberes, e Luiz Fernando Janot, que lhe ensinou a valorizar a arquitetura e, sobretudo, as pessoas a quem ela deve servir — compromisso que orientou sua atuação em projetos de hospitais públicos e em favelas. “As favelas me ensinaram muito. Hoje, escrevo para um folhetim voltado aos jovens moradores da Rocinha, graças à plataforma UNIR, da PUC-Rio, criada por Marcelo Burges e Tatiana”, afirmou Toledo.
Antes de encerrar a mesa-redonda, Marcelo Burgos destacou a importância de iniciativas como a UNIR – Universidade Rocinha, projeto da PUC-Rio que busca criar uma via de mão dupla entre a universidade e a favela, reconhecendo e valorizando o conhecimento acumulado sobre a Rocinha, e na produção de novos conhecimentos a partir da troca estrutura e consequente da universidade entre as diferentes áreas e saberes da universidade e da favela. Burgos concluiu com um apelo pela retomada do senso de prioridade. “Construir esse sentimento de urgência e de vergonha [pela desigualdade] é uma tarefa que precede todo o resto. Precisamos retomar politicamente isso”, finalizou o mediador.
Janice Perlman, sócia honorária do IAB RJ
Durante o encontro, Janice Perlman recebeu o título de sócia honorária do IAB RJ, entregue por Marcela Abla e pelo ex-presidente do Instituto, Sérgio Magalhães. A homenagem, aprovada em 2017, reconhece sua contribuição pioneira para os estudos sobre favelas.

Ao entregar o título, Magalhães destacou o impacto da obra da pesquisadora, especialmente o livro O Mito da Marginalidade, na desconstrução de preconceitos sobre esses territórios. “Ela é uma pioneira no estudo sistemático das favelas”, afirmou.
Marcela Abla também ressaltou a trajetória de Janice, lembrando de sua atuação internacional e da influência de seu trabalho tanto na prática quanto na teoria.
Além de Perlman, foram homenageados Luiz Carlos Toledo, pelo trabalho no Plano Diretor da Rocinha; Rene Silva, fundador do Voz das Comunidades; e Cândida Maria Privado.


