O evento foi promovido pelo IAB RJ em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Cultura.
A apresentação reuniu estudantes, profissionais e interessados em arquitetura, atraídos pela relevância do trabalho do arquiteto e pela oportunidade de conhecer sua visão diretamente. A presidente do IAB RJ, Marcela Abla, destacou a generosidade de Kéré e como essa característica se reflete no seu trabalho, cujo principal propósito é a promoção social.
“Kéré não apenas transforma territórios, ele transforma pessoas. Sua generosidade em compartilhar conhecimento e sua visão comprometida com o coletivo inspiraram professores, estudantes e profissionais que vieram ao Palácio Gustavo Capanema ouvi-lo. É uma contribuição valiosa para o debate sobre a função social da arquitetura e seu papel no mundo”, afirmou Marcela.
Em sua fala, Kéré defende a arquitetura como um catalisador para a construção de cidades e sociedades melhores, sempre colocando o bem-estar coletivo no centro das decisões projetuais.

Tornei-me arquiteto por acaso
Nascido em 1965 na vila de Gando, província de Boulgou, em Burkina Faso, Kéré afirma ter se tornado arquiteto “por acaso”. Na infância, percorria cerca de 40 quilômetros até a aldeia mais próxima para estudar, em salas escuras e mobiliário precário. Aprendeu marcenaria para consertar os bancos escolares, inconformado com as condições. Ganhou mais tarde uma bolsa de estudos na Alemanha e, aos 30 anos, iniciou a graduação em arquitetura com o propósito de voltar ao seu país e construir escolas.
Sua primeira obra, a Escola Primária de Gando, foi viabilizada com o apoio da comunidade local e recursos captados por meio da fundação Schulbausteine fuer Gando (“Tijolos para Gando”). O projeto utilizou tijolos de argila produzidos pela própria população, combinando técnicas tradicionais com soluções de engenharia para melhorar o desempenho térmico e estrutural. A participação da comunidade foi central: crianças recolheram pedras para as fundações e mulheres carregaram água para a fabricação dos tijolos. Aliás, elas tiveram papel determinante na obra. Concluída em 2001, a escola tornou-se marco local de orgulho coletivo e recebeu o Prêmio Aga Khan de Arquitetura em 2004.
Fã de Niemeyer
Kéré reafirmou sua admiração pelo Brasil e pela arquitetura nacional. Ele fez questão de destacar os arquitetos modernistas que admira, Oscar Niemeyer e Lina Bo Bardi entre eles. “Sempre quis conhecer o país de Niemeyer. Aqui, a arquitetura é mais avançada até que os Estados Unidos”, afirmou.
Entre as obras apresentadas durante a palestra estavam o Serpentine Pavilion; a Clínica Cirúrgica e Centro de Saúde de Léo; Sarbalé Ke; o Museu de Arte de Las Vegas; e a Assembleia Nacional de Benin, atualmente em construção. Em todos, destacou o papel da arquitetura como serviço à coletividade e a centralidade da educação na construção de sociedades mais justas.
O Centro de Saúde de Léo foi projetado para aliviar a demanda do hospital distrital, reunindo enfermaria, maternidade e unidades cirúrgicas em módulos independentes organizados de forma a criar espaços de convivência mais humanizados. Já Sarbalé Ke, instalação criada para o Festival de Coachella em 2019, foi inspirada no baobá, árvore simbólica da África Ocidental e referência comunitária e espiritual, com 12 torres que remetem à arquitetura de Gando. A Assembleia Nacional de Benin, por sua vez, toma como referência a “árvore da conversa”, tradição regional de tomada coletiva de decisão.
Entre os presentes, havia grande expectativa sobre a Biblioteca dos Saberes, primeiro projeto de Kéré no Brasil e considerada pela Prefeitura do Rio um dos futuros equipamentos culturais mais relevantes da cidade, como parte do programa Praça Onze Maravilha. Entretanto, o arquiteto manteve sigilo sobre detalhes do projeto, revelando apenas durante outro evento oficial, realizado na quadra da Estádio.


