Um Rio de Janeiro para os próximos 100 anos – do colapso à reconstrução

Reflexão de Marcela Abla, presidente do IAB RJ, sobre os desafios e caminhos para um Rio mais justo, sustentável e resiliente daqui a um século

Pensar como será o Rio de Janeiro daqui a 100 anos exige muito empenho, muita coragem. Exige determinação, um olhar sensível sobre o presente e uma reflexão profunda sobre o passado. Não se projeta o futuro sem antes compreender onde estamos e como chegamos até aqui.

O Rio de Janeiro, muitas vezes idealizado como “cidade maravilhosa”, espelha ao mundo uma paisagem única — o encontro do mar com as montanhas, com o verde das florestas e o azul do céu. No entanto, essa paisagem, reconhecida como Patrimônio Mundial da Paisagem Cultural Urbana, convive com um território profundamente marcado por desigualdades sociais, com uma estrutura urbana excludente, que se expressa, sobretudo, na persistente crise habitacional.

O planejamento urbano do Rio de Janeiro, ao longo dos últimos 100 anos, em que pesem esforços pontuais e desarticulados, produziu e aprofundou essas desigualdades. Periferias sem qualquer serviço de infraestrutura, assentamentos informais em áreas de risco e desassistidos, mobilidade precária e moradias inadequadas à vida configuram um cenário que não pode mais conviver com a permanente omissão do Estado. Iniciativas como o Favela-Bairro e o Morar Carioca foram fundamentais nos anos 1990 e na primeira década dos anos 2000, mas, ao serem descontinuadas, deixaram sérias lacunas que se multiplicam em efeito cascata. Projetos como o Corredor Cultural, implementado no início dos anos 1980, trouxeram avanços importantes na revitalização urbana e na valorização do patrimônio construído, ao combinar urbanismo e conservação sem necessariamente recorrer ao tombamento tradicional, demonstrando que é possível pensar a cidade de forma alternativa, inovadora e integrada.

Por outro lado, as recentes estratégias de intervenção no Centro do Rio, como o programa Reviver Centro Patrimônio PRÓ-APAC, apresentam riscos que não podem ser ignorados. A ausência de diretrizes claras para a alocação da habitação de interesse social, convivendo com os interesses dos grandes operadores do mercado imobiliário, conduz à possibilidade de descaracterização do patrimônio histórico construído, que na ausência de mecanismos de participação popular apontam para um processo de iminente gentrificação, acompanhado do aprofundamento da exclusão, que subverte os princípios da justiça urbana e da justiça ambiental.

O desafio de imaginar um Rio de Janeiro em 2125 exige, agora, um novo paradigma urbano-ambiental. Os desafios climáticos nos obrigam a considerar cenários extremos evidentes e que já estão postos. O aquecimento global com a elevação do nível dos oceanos ameaça cidades costeiras — e o Rio, espremido entre mar e morros, será diretamente impactado. Ao mesmo tempo, as emissões de gases de efeito estufa, o emprego indiscriminado do concreto sobre a terra, impermeabilizando o solo, os desmatamentos, a destruição das florestas e dos rios voadores da Amazônia, não são figuras de retórica, comprometem o equilíbrio ecológico do Planeta. Estamos a 2% do ponto de não retorno!

Para pensarmos o Rio como uma cidade policêntrica, configurada por múltiplos centros conectados entre si, onde os deslocamentos sejam curtos, eficientes e sustentáveis — inclusive por meio flutuante, é o que o arquiteto nigeriano Kunlé Adeyemi nos estimula com a projeção de suas escolas flutuantes, apostando que construir com a água, e não contra ela, pode ser o caminho viável para muitas cidades costeiras.

Por conseguinte, é fundamental experimentar e projetar soluções baseadas na natureza para garantir cidades resilientes, capazes de resistir aos desafios climáticos. Essa abordagem valoriza a confluência dos saberes ancestrais com as conquistas tecnológicas, reconhecendo que só ao nos debruçarmos, com respeito e inteligência, sobre a natureza poderemos construir um futuro sustentável e equilibrado nessa Terra Azul. A imagem transmitida ao mundo por Yuri Gagarin, em 1961, que “orbitando a Terra na espaçonave, vi quão lindo o nosso planeta é. Povo, vamos preservar e aumentar essa beleza, não destruí-la!” é, sem dúvida, um convite irrecusável, e vem ao encontro da provocação do pensador Ailton Krenak, em O Futuro Ancestral, ao imaginar um mundo em que a natureza retoma seus caminhos, onde o concreto se rompe, os rios reaparecem e os ecossistemas são restaurados. Esse é o futuro possível — um pacto renovado entre pessoas e natureza, saberes e experiências.

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