Ao destacar o valor histórico da edificação, projeto por equipe liderada por Lucio Costa, com consultoria de Le Corbusier, Fernandes analisa como a iniciativa liderada pelo IAB RJ pode não apenas salvaguardar o bem, mas também atuar como catalisadora na revitalização do Centro do Rio de Janeiro.
Ele argumenta que a conversão do espaço em um centro de fomento à cultura arquitetônica e urbanística nacional reafirma a vocação pública do edifício e o conecta às demandas contemporâneas da cidade.
Confira, abaixo, trecho do artigo “Palácio Gustavo Capanema pode se tornar a Casa da Arquitetura do Brasil”:

Poucos edifícios no Brasil condensam de forma tão clara uma ideia de país quanto o Palácio Gustavo Capanema. Não afirmo isso apenas como arquiteto, mas como alguém que observa como nossas cidades perderam a capacidade de produzir símbolos públicos consistentes. O Capanema não é apenas um marco da arquitetura moderna brasileira, ele materializa um momento em que o Estado acreditou que arquitetura, cultura e educação eram instrumentos centrais de transformação social, algo que hoje parece quase ousado de recordar.
Do ponto de vista histórico, o edifício foi concebido em 1936 para abrigar o então Ministério da Educação e Saúde, e inaugurado em 1945. Seu projeto foi coordenado por Lucio Costa e desenvolvido por uma equipe que reunia Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcelos, com consultoria direta de Le Corbusier. Esse dado não é apenas curioso, ele ajuda a compreender por que o Palácio Capanema se tornou o marco fundador da arquitetura moderna no Brasil e uma referência internacional.
Tecnicamente, trata-se de um edifício exemplar até os dias de hoje. A estrutura independente em concreto armado garante planta livre e flexibilidade espacial. As fachadas envidraçadas são protegidas por brises móveis, desenhados especificamente para responder ao clima tropical. Os pilotis liberam o térreo e estabelecem uma relação direta com a cidade. Soma-se a isso a integração radical entre arquitetura e artes plásticas, com os painéis de azulejos de Candido Portinari, os jardins de Burle Marx e as esculturas de Bruno Giorgi. Tudo foi pensado como parte de um mesmo projeto público.
O que sempre me chamou atenção, no entanto, é o contraste entre essa ambição original e o destino que o edifício teve ao longo das décadas seguintes. Embora tombado pelo IPHAN desde 1948, o Palácio Capanema passou longos períodos subutilizado, envolto em disputas administrativas e distante da vida cotidiana da cidade. Preservamos sua imagem, mas esvaziamos sua função simbólica e cultural.
Esse quadro começou a se alterar recentemente com a realização de um restauro amplo e cuidadoso. O edifício teve seus sistemas construtivos recuperados, fachadas e esquadrias restauradas, além da conservação das obras de arte integradas. Trata-se de um restauro tecnicamente consistente, que devolveu ao Capanema não apenas sua integridade física, mas também a possibilidade concreta de um novo uso público compatível com sua importância histórica.
É justamente nesse contexto que considero pertinente a proposta do Instituto de Arquitetos do Brasil, por meio do IAB RJ, de criar no edifício a Casa da Arquitetura do Brasil. Faço questão de destacar a origem dessa ideia porque ela nasce de uma instituição com longa trajetória de atuação crítica e compromisso com o debate urbano e arquitetônico, e não como solução improvisada para preencher um vazio.
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Crédito das fotos: Alexandre Macieira | Riotur
IAB propõe criação da Casa da Arquitetura do Brasil no Palácio Gustavo Capanema
Em maio, durante a cerimônia de reinauguração do Palácio Gustavo Capanema, o IAB apresentou diretamente à ministra da Cultura, Margareth Menezes, proposta de criação da Casa da Arquitetura do Brasil. O espaço seria dedicado à preservação da memória e à documentação da arquitetura nacional.
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A proposta foi entregue pela presidente do IAB RJ e vice-presidente da Região Sudeste do IAB, Marcela Abla, e pelo diretor cultural da Direção Nacional Pedro Rossi. A ideia é que a Casa da Arquitetura seja instalada no próprio Palácio Gustavo Capanema, ícone do Movimento Moderno na arquitetura e na cultura nacional.
Para Marcela Abla, a criação da Casa da Arquitetura do Brasil, com sua instalação no Palácio Gustavo Capanema, representa um marco importante para a valorização da cultura arquitetônica e urbanística brasileira.
“O Capanema é o espaço ideal para abrigar a Casa da Arquitetura do Brasil, consolidando seu papel como símbolo da cultura arquitetônica nacional. Mais do que um espaço de preservação da memória e da documentação da arquitetura brasileira, a Casa poderá ser um centro de articulação entre cultura, educação e cidadania. Nele, poderemos reunir pesquisadores, promover exposições e dar visibilidade a acervos diversos. O IAB, por meio do GT Acervos e da Rede Brasileira de Acervos de Arquitetura e Urbanismo, já atua nesse sentido, em parceria com instituições de ensino, pesquisa e organizações da sociedade civil”, explicou a presidente do IAB RJ.